Conhece-te a ti mesmo
A existência humana é a busca de alcançar a identidade entre o ideal e o real.
O saber humano é reflexivo, centralizado no sujeito, opera uma interiorização, gera responsabilidade e a partir disso relação.
Somos seres em constante construção pela insatisfação natural que existe em nós apontando naturalmente para nossa origem e fim divinos.
No processo de desenvolvimento humano, o homem primeiro se constrói pelo auto-conhecimento: uma meditação pessoal onde se descobre como ser único. Conhecer a si mesmo permite que o sujeito se comporte como causa eficiente (protagonista) do agir. Isso gera a consciência humana.
Centrar-se em si é necessário e é o primeiro passo de construção da base da capacidade de relação posterior com as demais coisas e pessoas. Não é um fechamento perpétuo em si, num egocentrismo que o isola para sempre numa alienação pessoal.
Em seguida, o indivíduo dá continuidade a sua construção através de um empenho de relação e compromisso com as demais coisas criadas: objetos, criaturas, etc. Por essa relação imprime marcas de sua passagem pelo mundo natural.
Finalmente, e só então, pode realizar o terceiro tipo de construção que é a de comunhão/partilha/vivência com outras pessoas e que como num ciclo, fará com que ele se auto-conheça agora através da relação com os outros.
Somente passando pelas duas primeiras fases ele se capacita a solidarizar-se e amar o outro.
Portanto, primeiro vem o auto-conhecimento (que na verdade nunca termina); segundo o conhecimento/relação com as coisas; terceiro o conhecimento/relacionamento com os outros.
O conhecimento de si mesmo nunca terminará porque cada pessoa é uma realidade inesgotável. Cada indivíduo é inédito inclusive para si mesmo, uma “presença” misteriosa num corpo humano.
Desse modo, quando alguém anula sua personalidade incorre no mais terrível modo de suicídio, torna-se um “morto-vivo”, um “zumbi” e, obviamente, ninguém quer ter relações com um zumbi tornando-se essa pessoa alvo da mais profunda solidão uma vez que não está com outrem nem consigo mesma.
Apenas o “homem vivo” que se conhece, pode protagonizar a construção de sua história e do mundo.
Somente uma relação onde cada um assume e vive sua personalidade (a unicidade de seu ser, sua individualidade e ação sobre a própria vida) que pode ser uma relação feliz, unida pelo amor e partilha das diferenças - visto que para amar e relacionar-se é mister haver ao menos dois seres diferentes, plenos em si, em sua personalidade - isso só se faz possível quando existe um indivíduo que “é” e outro que também “é” e “é” diferente: ambos gozando de sua plena liberdade e capacidade de conhecer o “ser” do outro. E um ser só “é” quando aparece na consciência de um “outro” como sendo justamente um “outro” e não si próprio.
Uma relação onde um ser procura “ser” o outro, projeta-se no outro, é impossível e fracassada.
Portanto, faz-se necessário existir e existir com valor, em plenitude. O que “não é” não interessa a ninguém, justamente porque não ser é não existir!
Nesse complexo processo, os momento de crises e dificuldades aparecem como tempos de graça que nos despertam para a necessidade de reflexão pessoal, auto-avaliação, retomada de rumo (conversão) e, consequentemente, crescimento-evolução. Assim, as crises e sofrimentos não devem jamais serem vistos somente pelo seu lado trágico, de dor e desgaste. Ele abala nossas estruturas e faz correr novamente em nós a água interior que existe em nós - nossa personalidade - que estava estagnada e estragada.
O sofrimento e a crise não tolhem nossa liberdade no sentido de que liberdade não é a faculdade de poder escolher entre uma coisa e outra, mas sim uma capacidade de se posicionar diante de um valor ou de uma situação, seja ela dolorosa ou não.
Conhecer a si mesmo. Essa será sempre a mais longa viagem que o homem pode empreender: aquela rumo ao seu interior. Somente através dela que se constrói todo o resto e só poderá ser concluída quando nos dispusermos a nos levantar de onde estamos – com ou sem dores – e darmos o primeiro passo.
